Artigo | 7 de Setembro não mexeu na popularidade do governo, mas o deixou mais isolado

Depois de 200 anos da proclamação da independência da República e 33 anos da Constituição de 1988, promulgada após o período da ditadura militar, o Brasil se encontrou diante de um cenário pitoresco no 7 de setembro de 2021, com manifestações a expressar pedidos antidemocráticos, como o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e a intervenção militar sobre a democracia, sob o comando de Jair Bolsonaro (sem partido).

Os atos em questão foram convocados pelo próprio presidente, em tentativa de mobilizar sua base e demonstrar força política. Com carreatas que rumaram a Brasília e a São Paulo, a hipótese de um possível golpe militar foi monitorada por especialistas e pela imprensa, e a bem da verdade causou apreensão até em círculos progressistas da sociedade civil ao longo dos últimos dias. Mas nada se concretizou.

No dia 8 de setembro, passada a ansiedade, a pergunta que se faz é o que pode ter trazido como novo ingrediente este 7 de Setembro à interminável e autoalimentada crise do governo e do País.

Para Rodrigo Ratier, jornalista e professor da Faculdade de Comunição Cásper Líbero de São Paulo, os atos foram expressivos, mesmo que não tenham atingido as metas de adesão estabelecida pelos próprios organizadores.

O presidente cumpriu sua tarefa de continuar tumultuando o jogo. Apesar da frustração de setores da extrema direita que esperavam uma ordem de invasão ao Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro declarou claramente não respeitar qualquer decisão do ministro Alexandre de Moraes, sendo este o elemento golpista mais evidente de sua fala”, apontou o professor.

Ele lembrou que Moraes é ministro responsável por inquéritos que apuram o financiamento e a organização das manifestações antidemocráticas realizadas por aliados do presidente no feriado, e também conduz a investigação que apura ameaças e notícias falsas que miram os integrantes do STF. Dessa maneira, dizer que não cumprirá decisões proferidas por Moraes é o mesmo que dizer que não se submeterá à Justiça se esta lhe for desfavorável em julgamento.

Na mesma linha, Fábio Venturini, Integrante da comissão de ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, doutor em História e professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), explica que Bolsonaro convocou os atos para realizar uma intervenção estética, ou seja, mostrar posteriormente que o povo esteve ao seu lado.

O presidente tem de 20% a 25% de apoio em seu eleitorado; ele não tem força política o suficiente para impor uma agenda, mas pode causar um estrago. A questão é se outras forças políticas vão se convencer de que vale a pena entrar nessa aventura com ele.”

Tanto Ratier como Venturini afirmam que o presidente não sai fortalecido ou enfraquecido dos atos, apenas mais radicalizado. “Ele deu uma cartada muito arriscada. O PSDB, que era fiador do governo desde o início, já está discutindo o impeachment, então ele provoca a sociedade a se movimentar e tomar uma determinada posição. Ele radicalizou sua base, agora o Congresso e o STF devem agir com força”, aponta Venturini.

Fonte: Brasil de Fato / Opinião – Marília Leão
Imagem Destacada: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *